Manual Bíblico 2.0
NOVO TESTAMENTO · 7 PASTAS

Os Evangelhos

Conheça os quatro relatos da vida de Jesus e explore sua harmonia em sequência.

14 de out. de 2026 · @Állerson Nunes
ACERVO ORGANIZADO

Pastas do estudo

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Introdução aos Evangelhos

↑ Pastas

O que significa "evangelho"

A palavra vem do grego euangelion (εὐαγγέλιον), formada por eu ("bom") e angelion ("anúncio", "mensagem"): boa notícia, boas-novas. No mundo greco-romano, o termo anunciava acontecimentos que mudavam a história, como uma vitória militar ou o nascimento de um imperador. A inscrição de Priene (9 a.C.) celebra o aniversário de César Augusto como o início das "boas-novas" para o mundo.

Os cristãos tomaram a palavra de outra fonte: o profeta Isaías, que na Septuaginta usa o verbo euangelizomai para o mensageiro que anuncia a paz e a salvação: "Teu Deus reina!" (Is 52:7; 40:9; 61:1). Quando Marcos abre seu livro com "Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus" (Mc 1:1), está dizendo que a boa notícia definitiva não vem de César, mas de um Rei crucificado e ressuscitado.

No Novo Testamento, "evangelho" é, antes de tudo, a mensagem anunciada (1Co 15:1-4). Só a partir do século II o termo passou a designar também os livros que a registram.

Que tipo de livro é um evangelho?

Os Evangelhos não são biografias modernas, que cobrem toda a vida de alguém. Silenciam sobre quase trinta anos de Jesus (com exceção do nascimento e de um episódio aos doze anos) e dedicam cerca de um terço de seu conteúdo à última semana: a paixão, a morte e a ressurreição. Pesquisas recentes mostram que eles se aproximam do gênero das bioi, as biografias greco-romanas, que selecionavam episódios para revelar o caráter e a importância de alguém. Mas os Evangelhos vão além: são testemunho histórico com propósito teológico, escritos "para que creiais" (Jo 20:31).

Lucas afirma ter investigado "tudo cuidadosamente desde o princípio" (akribōs, Lc 1:3), apoiado em testemunhas oculares (autoptai, Lc 1:2), "para que tenhas plena certeza (asphaleia)" (Lc 1:4). História e teologia não se opõem: o significado depende de que os fatos tenham acontecido.

Os sinóticos e João

Mateus, Marcos e Lucas são chamados sinóticos, do grego synopsis, "ver em conjunto": seguem a mesma linha geral, concentram-se no ministério na Galileia e compartilham muitas passagens quase idênticas. João segue outro caminho: destaca o ministério na Judeia e as festas em Jerusalém, registra longos discursos, não traz parábolas narrativas e organiza seu relato em torno de sete sinais.

O problema sinótico. Como explicar as semelhanças, às vezes palavra por palavra, entre os três sinóticos? A explicação mais aceita hoje é a prioridade de Marcos: Mateus e Lucas teriam usado Marcos e uma outra fonte de ditos de Jesus (chamada "Q"). Outras propostas mantêm a prioridade de Mateus, posição tradicional de Agostinho. O que importa é que o uso de fontes não diminui a inspiração: o próprio Lucas declara ter pesquisado e usado relatos anteriores (Lc 1:1-3), e o Espírito Santo guiou esse processo (Jo 14:26; 2Tm 3:16).

Diferenças que se completam. As variações entre os relatos — na ordem dos fatos, nos detalhes e nas palavras — são as de testemunhas independentes, não de cópias combinadas. Cada evangelista escreveu de uma perspectiva e para um público, e os quatro juntos formam um retrato que nenhum deles daria sozinho.

Quatro evangelhos, um só evangelho

A igreja antiga reconheceu apenas quatro evangelhos. Por volta de 180 d.C., Irineu de Lyon argumentou que eles eram quatro como os quatro ventos e os quatro cantos da terra, e o Fragmento Muratoriano (c. 170) já os lista. Os chamados evangelhos apócrifos — como o Evangelho de Tomé e o Evangelho de Judas — surgiram a partir do século II, muitos de origem gnóstica, e nunca foram aceitos.

Os quatro símbolos. A tradição cristã associou os evangelistas aos quatro seres viventes de Ezequiel 1:10 e Apocalipse 4:7. A distribuição mais comum, de Jerônimo, é a que o app usa:

EvangelhoSímboloSentido
MateusHomemComeça com a genealogia humana de Jesus
MarcosLeãoComeça com a voz que clama no deserto; o Cristo forte e ativo
LucasBoi (novilho)Começa no templo, com o sacerdote Zacarias; o Cristo servo e sacrifício
JoãoÁguiaVoa às alturas da eternidade: "No princípio era o Verbo"

Visão de conjunto

AspectoMateusMarcosLucasJoão
Público principalJudeusRomanosGentios em geralToda a igreja e os que ainda não creem
Cristo apresentadoRei messiânicoServoFilho do Homem, SalvadorFilho de Deus
Palavra-chaveCumprirImediatamenteSalvarCrer
Versículo-chave1:1; 28:18-2010:4519:1020:30-31
Data provávelc. 60-70c. 55-65c. 60-62c. 85-95
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Evangelho de Mateus: o Rei prometido

↑ Pastas

Autor. Mateus, também chamado Levi, cobrador de impostos chamado por Jesus (Mt 9:9; Mc 2:14). O testemunho antigo é unânime: Papias (c. 125, citado por Eusébio) afirma que Mateus registrou os ditos de Jesus "em dialeto hebraico", e Irineu (c. 180) confirma a autoria. Um ex-cobrador de impostos, acostumado a registros, ajusta-se ao estilo organizado do livro e à frequência de referências a dinheiro.

Data e destinatários. Provavelmente entre 60 e 70 d.C., antes da destruição do templo, para comunidades de judeus cristãos. O livro supõe que o leitor conhece costumes judaicos e as Escrituras, e usa "Reino dos Céus" em vez de "Reino de Deus", por reverência judaica ao nome divino.

Propósito. Demonstrar que Jesus é o Messias prometido, o Filho de Davi e Rei de Israel, e que nele se cumprem as Escrituras.

Chaves de leitura

1. Grego hina plērōthē (ἵνα πληρωθῇ), "para que se cumprisse". Mateus usa cerca de dez fórmulas de cumprimento (1:22; 2:15, 17, 23; 4:14; 8:17; 12:17; 13:35; 21:4; 27:9). Cada episódio da vida de Jesus é lido como realização da promessa.

2. A genealogia, 1:1-17. "Livro da genealogia (biblos geneseōs) de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão." A expressão ecoa Gênesis 2:4 e 5:1 na Septuaginta: começa uma nova criação. A genealogia é organizada em três blocos de 14 gerações — e 14 é o valor numérico de Davi em hebraico (D-V-D = 4+6+4). Inclui quatro mulheres incomuns (Tamar, Raabe, Rute e "a de Urias"), antecipando a graça que alcança gentios e pecadores.

3. Cinco grandes discursos. Mateus organiza o ensino de Jesus em cinco blocos, cada um encerrado com a fórmula "quando Jesus acabou (etelesen) estas palavras" (7:28; 11:1; 13:53; 19:1; 26:1). Muitos estudiosos veem aí um paralelo com os cinco livros de Moisés: Jesus é o novo e maior Moisés, que ensina no monte (5:1).

4. Grego basileia tōn ouranōn (βασιλεία τῶν οὐρανῶν), "Reino dos Céus". Expressão que aparece cerca de 32 vezes, só em Mateus. O Reino é o governo de Deus que irrompe na pessoa de Jesus.

5. Emanuel: a moldura do livro. "Deus conosco" (1:23) abre o Evangelho; "eis que estou convosco todos os dias" (28:20) o encerra. Todo o livro é a presença de Deus entre os homens.

6. O único Evangelho que fala da ekklēsia (16:18; 18:17), mostrando a comunidade que nasce do Rei.

Estrutura

SeçãoConteúdoDiscurso
1-4Origem, nascimento e preparação do Rei—
5-7A ética do ReinoSermão do Monte
8-10O poder do Rei e o envio dos DozeDiscurso missionário
11-13Oposição crescenteParábolas do Reino
14-18O Rei forma seus discípulosDiscurso sobre a comunidade
19-25Rumo a Jerusalém; o juízoSermão profético (Monte das Oliveiras)
26-28Paixão, ressurreição e Grande Comissão—

O Cristo de Mateus. O Rei que nasce perseguido por um rei usurpador (cap. 2), é coroado de espinhos (27:29), crucificado sob a inscrição "Este é Jesus, o Rei dos Judeus" (27:37) e ressuscita com "toda a autoridade no céu e na terra" (28:18). O livro que começa com judeus termina com "todas as nações" (28:19).

Versículo-chave. "Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações" (Mt 28:18-19).

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Evangelho de Marcos: o Servo que dá a vida

↑ Pastas

Autor. João Marcos, de Jerusalém, em cuja casa a igreja se reunia (At 12:12), primo de Barnabé (Cl 4:10), companheiro de Paulo na primeira viagem missionária, que o abandonou no caminho (At 13:13) e depois foi restaurado (2Tm 4:11). Pedro o chama de "meu filho" (1Pe 5:13). Papias registra que Marcos foi o "intérprete de Pedro" e escreveu com exatidão o que Pedro pregava sobre Jesus. Marcos é, portanto, o Evangelho de Pedro.

Data e destinatários. Provavelmente entre 55 e 65 d.C., em Roma, para cristãos gentios que enfrentavam perseguição (como a de Nero, a partir de 64 d.C.). Marcos explica costumes judaicos (7:3-4), traduz palavras aramaicas (5:41; 7:34; 15:34) e usa termos latinos (legion, centurion, denarius).

Propósito. Apresentar Jesus como o Filho de Deus que veio servir e sofrer, e chamar os discípulos a segui-lo pelo caminho da cruz.

Chaves de leitura

1. Grego euthys (εὐθύς), "imediatamente". Aparece mais de 40 vezes. O ritmo é rápido, de ação em ação. Marcos registra poucos discursos e muitos milagres: o Servo trabalha.

2. A moldura do "Filho de Deus". O livro abre com "Jesus Cristo, Filho de Deus" (1:1) e chega ao clímax quando um centurião romano, diante da cruz, confessa: "Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus" (15:39). O primeiro a confessar plenamente quem Jesus é, no Evangelho escrito para romanos, é um soldado romano — e o faz ao vê-lo morrer.

3. O "segredo messiânico". Jesus repetidamente ordena silêncio sobre seus milagres e sua identidade (1:34, 44; 8:30). Ele não queria ser confundido com o Messias político esperado; sua messianidade só seria entendida à luz da cruz.

4. Grego lytron anti pollōn (λύτρον ἀντὶ πολλῶν), 10:45. "O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos." Lytron é o preço pago para libertar um escravo ou prisioneiro; anti indica substituição — "no lugar de".

5. O caminho (hodos). A seção central (8:27-10:52) se passa "no caminho" para Jerusalém, com três anúncios da paixão (8:31; 9:31; 10:33-34), cada um seguido da incompreensão dos discípulos e de um ensino sobre o discipulado. Seguir Jesus é tomar a cruz (8:34).

6. O final de Marcos. Os manuscritos mais antigos (Sinaítico e Vaticano) terminam em 16:8. Os versículos 9-20 provavelmente foram acrescentados depois; seu conteúdo, porém, está em harmonia com os outros Evangelhos e Atos.

Estrutura

SeçãoConteúdo
1:1-13Preparação: João Batista, batismo e tentação
1:14-8:26O Servo em ação na Galileia: milagres, autoridade e oposição
8:27-10:52A virada em Cesareia de Filipe e o caminho da cruz
11-13O Servo em Jerusalém: entrada, templo, controvérsias, sermão profético
14-16Paixão, morte e ressurreição

O Cristo de Marcos. O Leão que se faz servo. Forte contra demônios, doenças e tempestades, mas que escolhe a cruz. É também o Evangelho mais humano: Jesus se indigna (1:41), se compadece (6:34), se espanta com a incredulidade (6:6) e abraça crianças (10:16).

Versículo-chave. "Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Mc 10:45).

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Evangelho de Lucas: o Salvador de todos

↑ Pastas

Autor. Lucas, o "médico amado" (Cl 4:14), companheiro de Paulo nas viagens (as passagens em "nós" de Atos 16:10-17; 20:5-21:18; 27:1-28:16) e o único autor gentio do Novo Testamento. Escreveu também Atos, em uma obra de dois volumes dedicada ao mesmo Teófilo (Lc 1:3; At 1:1). Juntos, Lucas e Atos formam mais de um quarto do Novo Testamento.

Data e destinatários. Provavelmente por volta de 60-62 d.C.: Atos termina com Paulo preso em Roma, ainda vivo, o que sugere que Lucas foi escrito antes. Teófilo ("amigo de Deus") é chamado "excelentíssimo" (kratiste), título de um oficial romano. O público é o mundo gentio culto.

Propósito. Dar um relato ordenado e confiável "para que tenhas plena certeza das coisas em que foste instruído" (1:4), apresentando Jesus como o Salvador de todos, judeus e gentios, ricos e pobres, homens e mulheres.

Chaves de leitura

1. O prólogo do historiador, 1:1-4. Escrito no grego mais refinado do Novo Testamento, no estilo dos historiadores gregos. Lucas investigou akribōs (com exatidão), apoiado em autoptai (testemunhas oculares) e escreveu kathexēs (em ordem). Seu cuidado histórico é confirmado: ele situa os fatos com precisão (2:1-2; 3:1-2) e usa corretamente os títulos de autoridades locais em Atos.

2. Grego sōtēr e sōtēria (σωτήρ, σωτηρία). Lucas é o único sinótico que chama Jesus de "Salvador" (2:11). "Salvar" e "salvação" atravessam o livro, até o versículo-chave: o Filho do Homem veio "buscar e salvar o perdido" (19:10).

3. Grego sēmeron (σήμερον), "hoje". A salvação é presente: "hoje vos nasceu o Salvador" (2:11); "hoje se cumpriu a Escritura" (4:21); "hoje houve salvação nesta casa" (19:9); "hoje estarás comigo no paraíso" (23:43).

4. Os excluídos. Lucas dá voz aos que a sociedade deixava de fora: mulheres (Isabel, Maria, Ana, as mulheres que sustentavam Jesus, 8:1-3), pobres ("bem-aventurados vós, os pobres", 6:20), samaritanos (10:30-37; 17:16), cobradores de impostos (Zaqueu, 19:1-10) e pecadores (o filho pródigo, cap. 15).

5. O Espírito Santo e a oração. Lucas menciona o Espírito mais do que Mateus e Marcos juntos, e mostra Jesus orando em todos os momentos decisivos: no batismo (3:21), antes de escolher os Doze (6:12), na transfiguração (9:29) e na cruz (23:34, 46).

6. Os cânticos. Só Lucas registra os hinos do nascimento: o Magnificat de Maria (1:46-55), o Benedictus de Zacarias (1:68-79), o Gloria in excelsis dos anjos (2:14) e o Nunc dimittis de Simeão (2:29-32).

7. A viagem a Jerusalém, 9:51-19:27. Uma longa seção exclusiva de Lucas, introduzida com a expressão "manifestou no semblante a intrépida resolução de ir para Jerusalém" (9:51). Nela estão parábolas só registradas por ele: o bom samaritano, o filho pródigo, o rico e Lázaro, o fariseu e o publicano.

Estrutura

SeçãoConteúdo
1:1-4Prólogo
1:5-2:52Nascimentos de João e de Jesus; infância
3:1-4:13Preparação: João, batismo, genealogia, tentação
4:14-9:50Ministério na Galileia
9:51-19:27Viagem a Jerusalém
19:28-24:53Jerusalém: paixão, ressurreição, Emaús e ascensão

A genealogia de Lucas. Diferente da de Mateus, que desce de Abraão a Jesus pela linhagem legal de José, a de Lucas (3:23-38) sobe de Jesus até "Adão, filho de Deus", e muitos estudiosos a entendem como a linhagem de Maria. Jesus é o Salvador não apenas de Israel, mas de toda a humanidade.

O Cristo de Lucas. O Filho do Homem cheio de compaixão, que come com pecadores, toca leprosos e perdoa na cruz: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (23:34).

Versículo-chave. "Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido" (Lc 19:10).

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Evangelho de João: o Filho de Deus

↑ Pastas

Autor. João, filho de Zebedeu e irmão de Tiago, um dos Doze e do círculo íntimo de Jesus. O livro se apresenta como testemunho do "discípulo a quem Jesus amava" (21:20, 24), que se reclinou junto a Jesus na Ceia (13:23) e estava ao pé da cruz (19:26). Irineu, discípulo de Policarpo, que por sua vez conheceu João, afirma que o apóstolo escreveu o Evangelho em Éfeso.

Data e destinatários. Geralmente datado entre 85 e 95 d.C., o último dos quatro. O fragmento P52, com João 18, copiado no Egito por volta de 125-150 d.C., é o manuscrito mais antigo do Novo Testamento e mostra que o Evangelho já circulava longe de Éfeso pouco depois de escrito. Destina-se a toda a igreja, incluindo leitores gentios (explica termos como "Rabi" e "Messias", 1:38, 41).

Propósito. Declarado pelo próprio autor: "Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome" (20:31). Alguns manuscritos trazem o verbo no aoristo (pisteusēte, "venhais a crer"), outros no presente (pisteuēte, "continueis crendo"): o livro serve tanto ao evangelismo quanto ao fortalecimento dos crentes.

Chaves de leitura

1. O prólogo, 1:1-18. "No princípio (en archē) era o Verbo (ho Logos), e o Verbo estava com (pros) Deus, e o Verbo era Deus." João ecoa Gênesis 1:1 e usa Logos, palavra que falava tanto ao judeu (a Palavra criadora de Deus, Sl 33:6) quanto ao grego (a razão que ordena o mundo). E então vem o escândalo: "o Verbo se fez carne e habitou (eskēnōsen, "armou tenda") entre nós" (1:14), alusão ao tabernáculo onde a glória de Deus habitava.

2. Grego pisteuō (πιστεύω), "crer". Aparece cerca de 98 vezes, sempre como verbo, nunca como o substantivo "fé". Para João, crer é uma ação contínua: vir, receber, permanecer.

3. Os sete sinais (sēmeia). João não fala de "milagres" (dynameis), mas de "sinais", que apontam para quem Jesus é:

SinalTextoO que revela
Água em vinho2:1-11Jesus traz a alegria da nova era
Cura do filho do oficial4:46-54Poder da palavra a distância
Cura do paralítico de Betesda5:1-15Senhor do sábado
Multiplicação dos pães6:1-14O pão da vida
Jesus anda sobre o mar6:16-21Senhor da criação
Cura do cego de nascença9:1-41A luz do mundo
Ressurreição de Lázaro11:1-44A ressurreição e a vida

4. Os sete "Eu sou" (egō eimi). Jesus se identifica com o nome divino de Êxodo 3:14: o pão da vida (6:35), a luz do mundo (8:12), a porta (10:9), o bom pastor (10:11), a ressurreição e a vida (11:25), o caminho, a verdade e a vida (14:6) e a videira verdadeira (15:1). Além disso, usa "Eu sou" de forma absoluta: "antes que Abraão existisse, eu sou" (8:58).

5. A "hora" (hōra). De Caná ("ainda não é chegada a minha hora", 2:4) até a Ceia ("sabendo Jesus que era chegada a sua hora", 13:1), o livro avança para a cruz, que João apresenta como glorificação (12:23; 17:1).

6. Grego tetelestai (τετέλεσται), 19:30. "Está consumado." A obra que o Pai deu ao Filho foi levada ao fim.

Estrutura

SeçãoConteúdo
1:1-18Prólogo: o Verbo eterno se fez carne
1:19-12:50O Livro dos Sinais: Jesus se revela ao mundo
13-17O Cenáculo: lava-pés, discurso de despedida, oração sacerdotal
18-20O Livro da Glória: paixão, morte e ressurreição
21Epílogo: restauração de Pedro na Galileia

O Cristo de João. A Águia que voa da eternidade à cruz. O Evangelho que mais afirma a divindade de Jesus é também aquele em que ele se cansa (4:6), tem sede (19:28) e chora (11:35). Começa com "o Verbo era Deus" (1:1) e chega ao clímax com Tomé: "Senhor meu e Deus meu!" (20:28).

Versículo-chave. "Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3:16).

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Harmonia dos Evangelhos

↑ Pastas

Uma harmonia organiza os quatro relatos em uma sequência cronológica, mostrando onde eles se encontram e o que cada um acrescenta. A ideia é antiga: por volta de 170 d.C., Taciano compôs o Diatessaron ("através dos quatro"), que circulou por séculos na Síria. A ordem abaixo segue o roteiro do app; algumas sequências são debatidas, porque os evangelistas nem sempre organizam os fatos cronologicamente.

PartePeríodoPrincipais eventosTextos centrais
1. Prévia de quem é Jesus—Propósito de Lucas; prólogo de João; genealogiasLc 1:1-4; Jo 1:1-18; Mt 1:1-17; Lc 3:23-38
2. Os primeiros anos de João Batistac. 7-6 a.C.Anúncios a Zacarias e a Maria; Magnificat; BenedictusLc 1:5-80
3. Os primeiros anos de Jesusc. 6 a.C.-c. 26 d.C.Nascimento, pastores, apresentação no templo, magos, Egito, Nazaré, Jesus aos 12 anosMt 1:18-2:23; Lc 2
4. O ministério de João Batistac. 26-27 d.C.Pregação no deserto, batismo de arrependimento, anúncio do MessiasMt 3:1-12; Mc 1:1-8; Lc 3:1-18
5. Início do ministério de Cristo (Judeia)c. 27 d.C.Batismo e tentação; primeiros discípulos; Caná; Nicodemos; samaritanaMt 3:13-4:11; Jo 1:19-4:45
6. O ministério na Galileiac. 27-29 d.C.Rejeição em Nazaré; chamado dos discípulos; controvérsias do sábado; os Doze; Sermão do Monte; parábolas; envio dos DozeMt 4-13; Mc 1-6; Lc 4-9
7. Ao redor da Galileiac. 29 d.C.Cinco mil; Jesus anda sobre o mar; pão da vida; confissão de Pedro; transfiguraçãoMt 14-18; Mc 6-9; Lc 9; Jo 6
8. Ministério na Judeiac. 29 d.C.Festa dos Tabernáculos; os setenta; bom samaritano; cego de nascença; bom pastor; festa da DedicaçãoLc 9:51-13:21; Jo 7-10
9. Ministério na Pereiac. 29-30 d.C.Parábolas de Lucas 15-16; ressurreição de Lázaro; dez leprosos; jovem rico; ZaqueuLc 13:22-19:28; Jo 10:40-11:54
10. Apresentação formal a IsraelSemana da PáscoaUnção em Betânia; entrada triunfal; purificação do templo; controvérsias; ais aos fariseusMt 21-23; Mc 11-12; Lc 19:29-21:4; Jo 12
11. Preparação para a morteQuinta-feiraSermão do Monte das Oliveiras; última ceia; lava-pés; discurso do cenáculo; GetsêmaniMt 24-26; Mc 13-14; Lc 21-22; Jo 13-17
12. A morte de CristoQuinta à noite e sexta-feiraPrisão; julgamentos judaico e romano; negação de Pedro; crucificação; sepultamentoMt 26:47-27:66; Mc 14:43-15:47; Lc 22:47-23:56; Jo 18-19
13. Ressurreição e ascensãoDomingo e 40 diasSepulcro vazio; aparições; Grande Comissão; ascensãoMt 28; Mc 16; Lc 24; Jo 20-21; At 1:1-11

Correções em relação ao roteiro original. "Uma nova mudança para Cafarnaum" refere-se a Mateus 4:13-16, não a Lucas 4:13-16. "De Jerusalém à Pereia" corresponde a João 10:40-42, não a Lucas 10:40-42. O roteiro também saltava da Parte 7 para a Parte 9; aqui a seção da Judeia foi numerada como Parte 8.

A duração do ministério. João menciona três Páscoas (2:13; 6:4; 11:55), e possivelmente uma quarta festa (5:1). Por isso, o ministério público de Jesus é geralmente calculado em cerca de três anos e meio, aproximadamente de 27 a 30 d.C. (ou de 29 a 33 d.C., segundo outra cronologia).

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Conclusão: quatro testemunhas, um Senhor

↑ Pastas

Os quatro Evangelhos não são quatro versões concorrentes, mas quatro testemunhas do mesmo Senhor. Mateus mostra o Rei que cumpre as promessas; Marcos, o Servo que dá a vida; Lucas, o Homem perfeito que busca e salva o perdido; João, o Filho eterno que revela o Pai. Juntos, apresentam aquele que é plenamente Deus e plenamente homem, o único sacrifício capaz de redimir o pecado do mundo e o único digno de adoração.

O propósito de todos é o mesmo que João declarou: "para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome" (Jo 20:31).